sexta-feira, 2 de junho de 2017

Renato Rabelo: Gilse, orgulho de uma grande combatente de minha geração

Gilse ao centro, com Juliana e Gilda, suas filhas
Quando soube da morte de Gilse, nestes momentos nos quais vivemos brutal retrocesso político e civilizacional, me assomou à recordação o exemplo dessa mulher, simples e imponente na luta libertária, exemplo vivo para nossa luta de resistência atual, crucial para o destino de nosso país.
Conheci Gilse ainda no tempo da Ação Popular. Destacada militante no enfrentamento à ditadura, atuante e destemida, revelou grande capacidade de liderança. Chegou a ser presa e brutalmente torturada enfrentou os esbirros do regime ditatorial – tudo magnificamente descrito por Luis Manfredini, no seu belo trabalho, “As moças de Minas”. Gilse é parte da minha geração, está entre as grandes lutadoras e lutadores dos quais temos imenso respeito e admiração.
Gilse se integrou conosco ao Partido Comunista do Brasil, em 1972. Ocupou a linha de frente nessa histórica decisão da ampla maioria da AP, demonstrando esta Organização seu caráter revolucionário na prática ao se incorporar ao PCdoB no momento em que este conduzia a intrépida resistência do Araguaia, sendo então o Partido o alvo principal da sanha do regime militar.
Já nos estertores da ditadura, Gilse e seu companheiro Abel são designados pela Direção nacional do PCdoB para se fixarem em Fortaleza, onde iniciaram minucioso e detido trabalho para reunir o Partido, que se encontrava disperso, em todo Estado do Ceará. Gilse se empenhou como sempre com audácia e, sobretudo, após a anistia em 1979, ela assume a presidência do PCdoB no Ceará, e em conjunto com as/os camaradas, amigos e simpatizantes nesse Estado remonta todo Partido. O Partido no Ceará tornou-se dos mais organizados no país, sendo implantado nos movimentos operário, estudantil e comunitário, na intelectualidade progressista, passando a eleger representantes no parlamento e ampliou crescentemente sua influência. É onde o PCdoB elege seu primeiro Senador, depois de Luís Carlos Prestes em 1946, o camarada Inácio Arruda.
Gilse, Presidenta do PCdoB no Ceará

Gilse também foi uma grande amiga nossa, minha e da minha companheira Conchita. Suas filhas, Juliana e Gilda foram forjadas nessa caminhada de vida clandestina e legal e sempre destemidas. Gilse demonstrando sua têmpera de lutadora enfrentou um câncer, chegando a ser considerado um caso desenganado, isso há mais de uma década. Continuou sem se desvanecer nenhum momento, sempre na luta para ajudar a construção do Partido em Minas Gerais. Hoje nos despedimos emocionados dessa brava militante comunista.
Adeus Gilse! Fica seu imenso legado de lutadora coerente e apaixonada pela nossa grande causa civilizacional, o socialismo!
RENATO RABELO
Presidente da Fundação Mauricio Grabois